O terceiro par de olhos na fechadura (Parte 2)

Na maior cidade do Brasil, tinha sua própria sala, com uma secretária. Conseguiu um belíssimo apartamento para morar, nos Jardins Paulista, região nobre da cidade, por um ótimo preço. Em São Paulo, aprimorou seu inglês, seu espanhol e até aprendeu um pouco de mandarim. Sua fixação pelo trabalho aumentou ainda mais, impulsionado pelo frenesi da…

O terceiro par de olhos na fechadura (Parte 1)

Pela fenda do olho mágico, identificou Roberta. Abriu a porta para a garota entrar. Os dois assustados, mais uma vez. Porém, já não era a primeira que eles se encontravam entre quatro paredes com o propósito do sexo, algo totalmente fora do relacionamento meramente amistoso que era normalmente reconhecido por seus colegas. Sabiam que aquilo…

No futebol não pode ter medo de ser feliz

Já foi escrito desde o nascimento ao epitáfio. Todo torcedor pensa ser parte da equação. Acredita no gol como libertação. Recompensa pelo sacrifício de ser devoto. O gol é a razão de ser, viver ou morrer. Ao ser banhada pela luz do mundo, Letícia foi imediatamente envolvida pelo manto sagrado. Ela não teve escolha, nasceu…

O gatinho de minha mãe

– Era uma vez… Meus olhos brilhavam, mas ela não podia vê-los em meio à escuridão do quarto. – Um gatinho branco que miava baixinho, na janela do vizinho. Ele ficava ali, porque no vizinho tinha um garotinho, assim como você, que gostava de ficar acordado até tarde, inventando aventuras com seus brinquedos… Eu não…

Ascensão de Ronald, o frango

Ronald, o frango, viveu em uma imensa granja, de uma corporação agro-industrial. Lá o objetivo era engordar. Assim como todos, chegou não sabendo nada sobre as coisas da vida, seja de ovo, clara ou gema. Ronald era dedicado. Ainda pintinho tratou logo de comer a ração freneticamente. Com quatro semanas, porém, Ronald, apesar de quase…

Liberdade aos pés descalços

Acordou de um sonho que corria de pés descalços, em um dia nublado de ventos cortantes. Apesar do frio que o sonho remetia e que a realidade impunha, sentiu uma rara sensação de felicidade. Colocou-se de pé, com cuidado, para não pisar em nenhum companheiro. Puxou um bloquinho de anotações de seu esconderijo e grafou…

Unfollow aos Homo Sapiens

Fred andava pelo centro da cidade, em direção ao trabalho. Distraído por esses tempos modernos… Dedilhava seu smartphone, dava likes no aplicativo. Sozinho, como fora concebido e sem sorte, mesmo pós-aplicativo. Com frio, obviamente por não ter seguido os conselhos de sua mãe, que dissera para sempre levar um casaco: “o tempo em Curitiba é…

À lama, Mariana

Em um fim de tarde pré-chuva, daqueles que todos os curitibanos se apressam, sabendo o que vem dos céus, eu subia a Rua XV. É quando encontro meu velho amigo Honório, descendo o calçadão. Todo engomado, de terno, gravata e chapéu. Sapato engraxado, calça de linho, um brinco. Falou-me empolgado de Mariana. O homem estava…

A mulher fantasma que devorava livros

Quando ela adentrou ao grande saguão principal da biblioteca, automaticamente a visão de Eugênio ficou noir. Enquanto ela se aproximava com passadas decisivas, Eugênio, lentamente deixava sua postura curvada, característica, para se recompor. O que sentiu foi um frio mortal. Repentinamente uma luz o cegou. Eugênio se encaminhava para o fim do expediente. Sua visão…

Repulsa

Atentava-se aos movimentos dela. Percebia as respostas dele. Por mais que se dissesse liberal, ou acreditasse que nada tinha com aquilo, todo aquele ar causava nele repulsa. Era mais um fim de tarde de calor na cidade acostumada ao frio. O retorno de uma sexta-feira abençoada pelo prelúdio do ócio. O calor daquele fim de…

Toda família tem seu animal de estimação

A confraternização será ao gosto do anfitrião, o Doutor José Valpiano. Procure perceber a suavidade dos vinhos; a adega, eu lhe asseguro, é premiadíssima. Muito possivelmente ouviremos o recital da filha do Doutor; a garota é uma dádiva. Deguste o requintado jantar; os banquetes da casa são comentados. Quando o anfitrião nos convidar para fumar…

O olho do pombo

– Fernando entrou todo atrapalhado, quase caiu – falou a mãe ao pai. – Depois ele foi andando para o quarto, todo torto. Nem falou nada. Foi mexendo o pescoço esquisito. Olha, esse menino está esquisito. – alertou a senhora. – Eu vou ter uma conversa com esse garoto e é agora mesmo – resolveu…

Lembrança de meu irmão

É você, Motoboy, que corta a urbe em frenesi. Vem com suas duas rodas em chamas, descuidando os sinais. Traz consigo em suas costas, sua Motogirl. Carga preciosa e delicada, que ainda guardava a prole. Mas apenas lembro-me de você, Motoboy, e quero falar apenas de você. E de mim. Pois quando menos esperava fui…

Ódio incondicional

– Eu te amo. Disse ele. Grande erro. Ninguém deveria ter o direito de proferir tais palavras. Deveria ser crime dizer esse tipo de coisa. Mas o tonto ousou dizer. Foi assim que começou a Guerra de Troia. Milhares de navios foram construídos. Imagine quantos trabalhadores deram o sangue para construir tantas embarcações bélicas para…

27 demônios

Cheguei à conclusão que me perseguem 27 demônios. Hoje, beirando a calma da idade, fica cada vez mais claro: são 27 demônios. Enumero-os em ordem cronológica. Os pioneiros apareceram logo após minha primeira infância. São demônios obscuros, que vivem em meu subconsciente. Resultantes de cenas assustadoras, que enxerguei com olhos de bebê. São fortes e…

A menina amarela e seu livro de gambiarras

Foi da menina amarela que ganhei o meu primeiro beijo. Um beijo cândido, como um azul-cor-de-gelo. Um beijo fresco, feito um verde-folha-de-palmeira. Um rosa-choque que levei daquele pedacinho de gente extremamente extraordinária. Foi dela que inventei minha primeira estória. “A menina amarela e seu livro de gambiarras”. A garota que inventava estórias e vivia no…

O epitáfio do Coronel Brilhante

O lugar era frio, como nuvem baixa de cerração. O ar condensava e saía vaporizado das bocas dos soldados. Gotejava umidade do teto. As paredes derretiam. Era doentio. Era doloroso. Descendo as escadas rumo à parte mais baixa, o porão, o lugar onde tudo acontecia. Eram choques elétricos, batidas com palmatória, socos no estômago, gritos…

O paciente espera

A luz branca é intensa nos corredores, na sala de espera, nos consultórios, ambulatórios ou enfermarias. Litros de café preto em abundante quantidade.Tudo se faz necessário; Os profissionais ali não podem dormir. Lá e cá, com seus jalecos e uniformes brancos, médicos e enfermeiros correm à noite em plantão, em alerta. Para melhor atender, proporcionar…

Certo está o cão?

Serafim era apenas mais um, destes milhares de infelizes seres humanos que acabaram nas sarjetas das grandes cidades; Vivendo por mais um gole, mais um trago, mais um troco, mais um nada. Serafim não fizera más ações, não era má pessoa, mas não tivera sorte na vida. Seu fim foi virar mendigo. Uma vida de…

Déjà vu

“É a clássica sensação de já ter presenciado, estado ou até mesmo sentido uma situação qualquer. O déjà vu é uma das mais intrigantes incógnitas dos estudos da memória humana”, discorre o Professor. Enquanto isso, sentados e atentos, os alunos faziam suas anotações em silêncio, para reter em seus cérebros o máximo do conhecimento. “Essa…

Quatro estações

Augusto despertou atingido por uma gota de angústia. Um pingo que se formou no teto. Condensado de toda a umidade produzida pela solidão do quarto, nas quatro paredes e o teto, de uma madrugada fria de inverno. Acordou com a gota caída do teto, num domingo ainda sem sol. Augusto despertou da nostalgia. De um…

O gozo do maquinista

Sebastião era um homem prudente. Assim foi feita sua fama no início da carreira de maquinista de trem. Um operador prudente. Muito elogiado pelos seus superiores na empresa ferroviária, Sebastião estava sempre atento à máquina. Sempre a mantinha muito bem regulada. Não descuidava das manutenções. Também era muito atento nos trilhos. Nunca deixava de alertar…

Erro de grafia

Hoje sonhei com uma mulher com W. Hoje sonhei com uma mulher, que usava uma echarpe verde e um vestido lilás. Com uma faixa no cabelo. Ela era a mulher W. Não consigo me recordar… O nome dela era… A campainha toca. Sempre acordo mal-humorado e nesse dia não foi diferente. Levantei já de má vontade….

Cabelo Bola

– Vamos lá? Polyana gentilmente aponta para o lugar que devo me sentar. Jovem, bonita e simpática. Quem não ficaria encantado com aquela figura? Além de cabeleireira profissional, ela também é aprendiz de atriz, bailarina, fashionista… Exemplo da geração Y. Pena que o amor moderno é tão volátil e só dá pra ficar imaginando. – Como…

A Dona e o Brilhante

Certo dia, uma linda Dona envaidecida, ao passar por uma vitrine, percebeu em um belo pedestal uma reluzente Pedra Azul. A Dona, apesar de lustrosa, não era financeiramente abastada. Mesmo assim, apaixonada pelo brilho da jóia, juntou seus honestos recursos e decidiu adquirir a Pedra. Que por sua vez, mesmo parecendo item de tão precioso…

Quarto e sala, varanda…

– Você está com a chave? Você abre? – Perguntava Mário ansioso. Tem quarto que não possui varanda; Existem salas não-conjugadas; Banheiros que estão do lado de fora das casas. Existem as suítes – o quarto e banheiro conjugados. Angélica abriu a porta. Era um quarto de motel. Os motéis se tornaram nos dias de…

4h20

– Que horas são? O que é isso Morceguinha? Continue dançando e rodopiando pela sala de estar. Está tão linda, sublime e encantadora. Gira, passinho pra cá, pra lá. Rodopia até ficar tontinha e cai no sofá. – Que horas são? Você sabe me dizer? Isso é tão importante assim? Mas va-lá… – Agora são…

O vórtice

Ao despertar Emílio virou-se para Glória e perguntou se havia roncado. – Desculpe. É que ronco quando fumo muito – justificou-se. Glória o acalmou. Disse que tinha dormido bem e não ouviu nada. Mas estranhou a pergunta. Emílio não acreditou muito na resposta, pois sabia que roncava alto. Emílio despertou e olhou para Glória. A…

Meia-noite à beira-mar

Vez em quando as brumas choram sobre os coqueirais. Isso acontece, vez em quando, na vida. É quando o meio se mistura com o fim. É o lusco-fusco. O translúcido. O purgatório. Pobre coqueiro que se remexe e segura seus cocos. Eis o dilema: a fuga? O que está lá no alto? Ou lá embaixo?…